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segunda-feira, 17 de abril de 2017

Violência explode e Pernambuco vira ‘faroeste’

Quem vive em Pernambuco tem a sensação de que o Estado voltou dez anos no tempo quando o assunto é violência. Esse sentimento é confirmado pelos números.

Nos meses de janeiro e fevereiro, foram registrados 974 homicídios – quase 17 por dia. Isso representa um aumento de 47% em relação ao mesmo período de 2016. O Estado de São Paulo, com população quatro vezes maior, contabilizou 622 assassinatos nesses meses.
O índice alto acendeu um sinal amarelo nas autoridades pernambucanas, que estão recontratando até policiais aposentados para tentar investigar os crimes.
Recife também sofre com assaltos a ônibus. Levantamento do sindicato dos motoristas e do “Jornal do Commércio” aponta mais de mil roubos neste ano -o governo Paulo Câmara (PSB) contesta e diz que não passam de 500.
De fato, Pernambuco vive um retrocesso: desde 2007 não se registram tantos assassinatos. Naquele ano, o primeiro de Eduardo Campos (PSB) como governador, o Estado implantou um programa de redução de mortes que foi premiado: Pacto Pela Vida.
O projeto tinha como meta reduzir os homicídios em 12% ao ano. Para isso, apostava na integração das polícias para melhorar a investigação, bônus a policiais que resolvessem mais crimes e participação popular na criação de políticas públicas de prevenção e combate à criminalidade.
Em 2007, foi criada a primeira delegacia especializada na resolução de homicídios. O Estado foi dividido em 26 áreas, e os responsáveis eram cobrados em reuniões semanais com o governador.
Nos anos seguintes, as mortes violentas caíram. Em 2013, Pernambuco teve 3.100 assassinatos, o menor número desde que começou a contabilizar esses crimes. “Havia grupos de extermínio responsáveis por grande parte dos homicídios”, diz José Luiz Ratton, professor de sociologia da Universidade Federal de Pernambuco e um dos idealizadores do Pacto Pela Vida.
“Quando você investiga e prende esse pessoal, você manda um recado às ruas de que matar não está compensando mais.” Ratton foi assessor de Eduardo Campos na área de segurança pública até 2012. Na avaliação dele, o Pacto perdeu força por não conseguir manter a integração das polícias, melhorar o precário sistema prisional nem fomentar projetos de prevenção duradouros. Muitos dos avanços, como os bônus para policiais, não têm força de lei.
EXTERMÍNIO
Autoridades e pesquisadores pernambucanos dizem acreditar que a maioria das mortes tem relação com o tráfico, mas não há notícia da atuação significativa de grandes facções criminosas.
Existem, porém, guerras pelo domínio de pequenos territórios. Quando há um assassinato em um grupo, liga-se um sistema de vingança que parece não ter fim.Um morador da Várzea, periferia do Recife, explica o motivo dos sete assassinatos nos últimos dois meses no bairro: “Aqui tem dois grupos [de traficantes]. É uma diferença de duas ruas entre um e outro. Um cabra chamado ‘Cabelo’ falou que mataria todos que entrassem no ponto dele para vender. Matou um, matou dois. Aí foram lá e revidaram. Já são sete mortos”.

O tráfico também mata quem não paga. Ratton, que pesquisa o mercado de drogas no Recife, diz que usuários de crack, por exemplo, vendem a pedra para pagar dívidas. Viciados, usam a mercadoria que deveriam repassar e acabam mortos por traficantes.
O próprio governo aponta outro fator: os grupos de extermínio ligados a ex-policiais. As quadrilhas fazem segurança particular, cobram taxas de comerciantes e “prestam serviços” de pistolagem. Um deles, o Thundercats, foi desmantelado em 2008, mas um de seus líderes continua solto. Ex-soldado da Polícia Militar, Marcos Antônio da Silva responde à Justiça por 25 assassinatos.
“Nós temos, sim, milícias armadas atuando no Estado, isso não é novidade”, reconhece Angelo Gioia, secretário de Defesa Social (segurança pública).
PADRÃO
Desde dezembro, a PM faz operação padrão, diminuindo o número de homens nas ruas. Os policiais reivindicam que seus salários sejam equiparados aos dos policiais civis – cerca de R$ 6.000.Para aumentar os agentes nas ruas, o Estado paga uma remuneração extra para que trabalhem durante as folgas.
Agora, durante a operação padrão, os policiais se recusam a fazer esse “bico” oficial.Também não deixam os quartéis se houver problemas de estrutura. “O PM não pode sair às ruas com coletes e munições vencidos, armamento que trava na hora de atirar, nem viaturas sem condições de rodar”, diz Nadelson Leite, vice-presidente da Associação de Cabos e Soldados.
O governo afirma que a operação padrão é um dos fatores que contribuem para o aumento dos crimes. O governador tem se recusado a negociar salários com a associação – diz que só negocia com os comandantes da tropa.
A Polícia Civil também reclama da falta de efetivo e precariedade. Uma portaria do governo previa que o Estado deveria ter 10 mil agentes em 2015: dois anos depois, há cerca de 5.000.
Algumas delegacias foram interditadas pela Justiça por falta de estrutura.Com a explosão das mortes, a gestão Câmara anunciou a recontratação de 800 policiais aposentados para atuarem em serviços internos e liberar agentes efetivos para investigações. O salário é de R$ 1.800 por 40 horas semanais.
O telefone toca. Mataram um rapaz, avisa um professor à reportagem. “Corre pra cá.” Na rua da Universidade Federal de Pernambuco, Várzea, periferia do Recife. O corpo estirado na calçada, o sangue escorrendo. O pai se abaixa e abraça a cabeça do filho.
A dez metros, alunos entram e saem da faculdade. Muitos nem olham o cadáver. Uma moça pergunta: “Foi tiro?”. Três, responde um policial, que se vira para avaliar a garota. Dá até uma piscadela para um colega de farda.Leandro Cavalcanti, 18, foi perseguido por dois homens na manhã de quinta (6). Até correu, mas…O pai dele, Manoel Cavalcanti, 44, diz que vai se vingar. “Eu sei quem matou. Eu, como pai, é que vou ter de pegar. A polícia não faz nada.” O motivo? Nesses momentos, ninguém fala sobre isso, por medo de ser a próxima vítima.
Por três dias, a reportagem foi até cenas de assassinatos na região metropolitana do Recife. Apenas em janeiro e fevereiro, Pernambuco registrou 974 homicídios -alta de 47% em relação ao mesmo período do ano passado e o maior número em dez anos.
“O perfil de quem morre em Pernambuco é o mesmo de quem mata: jovem, negro, pobre e morador da periferia”, afirma José Luiz Ratton, professor de sociologia da Universidade Federal de Pernambuco e pesquisador da violência no Estado.
Na Grande Recife, a maior parte dos assassinatos ocorre em regiões pobres e com pouca presença do Estado. Em três favelas próximas da famosa praia de Boa Viagem, por exemplo, foram cinco mortes em cinco dias da semana retrasada, segundo moradores.
Essas comunidades somam mais de 70 mil habitantes e convivem com escasso saneamento básico: boa parte dos barracos fica em palafitas sobre o poluído rio Capibaribe.O cenário de pobreza extrema fica na fronteira com prédios de luxo – um dos maiores shopping centers da América Latina foi construído ao lado de uma das favelas.
Moradores dizem que a área sofre com abusos policiais e guerra entre pequenos traficantes, mas também com crimes passionais.Cinco dias antes de a reportagem visitar o local, uma menina de 16 anos foi morta a facadas por uma garota da mesma idade.
MADRUGADA
Eram 21h de domingo (9), quando o carro da TV Jornal (afiliada do SBT) saiu da redação na região central do Recife. Levava Edson Araújo, principal repórter policial da televisão pernambucana. Há 26 anos, ele faz reportagens sobre crimes na madrugada.Nesta noite, o primeiro homicídio ocorreu no morro da Macaxeira. O carro da reportagem sofre para subir as ladeiras. Moradores caminham com Bíblias na mão.
No alto do morro, um corpo: Gleibison de Souza Rodrigues, 28. Ninguém sabe por que ele morreu. Ninguém viu. “Teve peixeira. Três facadas e tiros”, relata um perito. Moradores assistem à retirada do cadáver. Em uma casa ao lado, toca alto uma música da banda britânica Dire Straits.”Me choca muito essa banalização da morte. Já vi cena com um corpo estirado e, do lado, a poucos metros, o povo fazendo pagode e dançando. Virou normal”, conta Edson.
Trinta minutos depois, a reportagem chega a Três Carneiros, outro bairro pobre do Recife. Luiz Gustavo do Nascimento, 19, morreu a tiros. A família pede privacidade e não deixa a TV gravar a cena. Policiais militares conversam na calçada. O corpo está no meio da rua, sem isolamento. Carros desviam.Uma moto se aproxima lentamente, cambaleante. Parece que vai desviar. Mas o motoqueiro, sem capacete, passa por cima do corpo de Gustavo. O pneu da frente para em cima do pescoço. Uma parente grita, chorando: “Olha o que estão fazendo com ele”.
A polícia corre atrás. O motoqueiro estava bêbado.
LABIRINTO
Desde 2007, quando implantou o programa de redução de homicídios Pacto Pela Vida, Pernambuco tem uma delegacia especializada na resolução de mortes violentas.Segundo Angelo Gioia, secretário de Defesa Social, o Estado soluciona 16% dos homicídios. “É muito acima da média nacional”, diz. Historicamente, a taxa média de solução de assassinatos no Brasil é de apenas 8%.
A tarefa da polícia, agora, é dar conta de tantas mortes.A madrugada de domingo ainda estava no meio, mas sete pessoas já haviam sido mortas na Grande Recife. Na noite anterior, foram ao menos oito.
O repórter Edson Araújo tem de escolher qual das cenas visitará. Ele costuma descartar os mortos ainda não identificados pela polícia.Escolhe um homicídio em São Lourenço da Mata, região metropolitana. Forma-se uma fila de carros de polícia e de TVs para atravessar uma plantação de cana. Parece um labirinto.
Pior: um labirinto em que carros atolam na lama.Uma hora depois, numa rua de terra, está um corpo com uma faca cravada no peito. Ao lado, um chicote. José Cristiano da Silva, 27, tinha ido à região para cavalgar em seu cavalo de raça. Foi esfaqueado, e o animal, levado pelo assassino, segundo a polícia.
A delegada Gleide Ângelo, mulher de Edson Araújo, desce do carro. É seu último plantão, seu último homicídio. No dia seguinte ela assumiria outro departamento da polícia. Ela olha a cena e tapa o rosto quando um perito vira o corpo ensanguentado.”Será que mataram esse cabra só para roubar o cavalo dele?”, ela pergunta. Edson, microfone na mão, responde: “É o faroeste”.
Angelo Gioia, secretário de Defesa Social de PE, culpa operações padrão das polícias Civil e Militar como uma das principais causas do aumento de crimes no Estado.
O secretário, ex-delegado da Polícia Federal, assumiu o cargo em outubro do ano passado, a convite do governador Paulo Câmara (PSB). “Tivemos paralisações brancas da Polícia Civil, da Científica e, depois, da Polícia Militar. Evidentemente, isso traz um custo operacional.”
Giogia critica a forma como são negociados reajustes salariais das polícias. Para ele, governos estaduais não devem negociar diretamente com associações de policiais, e sim com comandantes.
“Essa negociação com associações trouxe um grande prejuízo para a tropa, porque você tira o comando dos oficiais. Isso enfraquece a relação hierárquica e de disciplina.”
Eduardo Campos (PSB), que governou PE entre 2007 e 2014, costumava se sentar à mesa com associações de PMs para negociar reajustes.Sobre o aumento dos homicídios, Giogia afirma que os dados “preocupam Pernambuco”.
“Estamos num trabalho intenso, seja a Polícia Civil como a Militar, focados na redução desses números. Nós precisamos focar as investigações em grupos de extermínio e quadrilhas de tráfico de drogas, de maneira a reduzir a criminalidade, prendendo essas pessoas”.
O secretário afirma que 89 pessoas envolvidas com tráfico e com grupos de extermínio foram presas – mais de 20 operações da Polícia Civil foram realizadas neste ano. Ele diz que a PM vai aumentar o policiamento em áreas com alto índice de assassinatos.
Gioia alega que cerca de 16% dos assassinatos são esclarecidos em Pernambuco. “Ainda é pouco, mas estamos acima da média nacional”. O secretário diz que o programa Pacto Pela Vida segue valendo como forma de reduzir os homicídios.
“Ele existe e avança, mas ele permite também ajustes e correções. É isso que está sendo feito.”Na quarta-feira (12), o governo anunciou um investimento de R$ 280 milhões em segurança pública nos próximos dois anos. Também informou que 4.800 novos PMs serão incorporados até 2018. Com informações da Folhapress.




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