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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Feito para bebês, picolé de leite materno não é indicado por médicos

Danielle Kattah com o filho, João, 6 meses, para quem oferece picolés feitos com seu leite

Além de evitar passeios ao ar livre nas horas mais quentes do dia, dar preferência a roupas frescas, amamentar mais vezes durante o dia para matar a sede do bebê, a produtora de eventos Danielle Kattah, mãe de João, seis meses, tem usado uma estratégia nada convencional para combater o calor: oferecer ao filho picolés feitos com o seu leite.
A sobremesa gelada foi apresentada pela moradora de São Paulo ao menino quando ele tinha quatro meses. Na primeira vez, João comeu metade do picolé, feito com 50 ml de leite materno.
"Ele achou engraçado por causa da sensação do gelado, ficava me olhando. Agora ele chupa igual a pirulito e come um inteiro", diz, acrescentando que não deixou de amamentá-lo nem diminuiu as mamadas durante o dia.
A pedido da pediatra de João, que só soube do sorvete depois de o garoto ter experimentado, Danielle seguiu à risca a dica de não guardar novamente no freezer o que ele não quisesse consumir. A recomendação é descartar a sobra para não criar focos de bactérias, além de manter o congelador limpo.


Nascimento dos dentes


Danielle tomou conhecimento do picolé nas redes sociais, em grupos sobre amamentação. "Comecei a pesquisar o que poderia utilizar para que ele não sentisse tanta dor quando começassem a nascer os dentes. Li sobre o picolé de leite materno, que era bom para o calor e também podia ajudar a anestesiar um pouco a gengiva", afirma a produtora de eventos.
Ela conta que dá o sorvete ao filho quando ele está muito irritado ou quando o dia está muito quente. "No máximo, até dez dias depois de feito", fala.
Assim como Danielle, a analista de recursos humanos Carina Batista Melo, 30, que mora em Tocantins, também prepara picolés para a filha, Alice, cinco meses.
Ela tirou a ideia do GVA (Grupo Virtual de Amamentação), do qual faz parte. "Pedi a opinião da pediatra da Alice, que foi favorável, e dei quando ela completou cinco meses, para aliviar o incômodo dos dentinhos que estão nascendo refrescar. Ela ama o picolé".


Os riscos


Apesar de ser um assunto em voga nos grupos voltados à maternidade na internet, para especialistas, o picolé de leite materno é um modismo que pode trazer consequências ruins para à saúde do bebê.
O problema não está na matéria-prima em si nem na baixa temperatura –que não torna ninguém mais suscetível a pegar gripes e resfriados–, mas no manuseio e armazenamento. Para a enfermeira Natália Turano do Grupo de Apoio de Aleitamento Materno do Hospital Einstein, em São Paulo, o processo de congelamento do leite deve ser impecável.
"Segundo orientações da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o leite deve ser guardado sempre em potes de vidro por até 15 dias no freezer, sem perder suas propriedades nutricionais. Como não há formas de vidro para picolé nem uma forma segura de esterilizar formas de gelo ou de plástico, não é possível fazer picolés de leite materno", declara Natália.
Como não há estudos sobre o tema, sobram controvérsias quando o assunto é oferecer o leite materno de um jeito diferente da forma tradicional.
"É preciso saber que se trata de um alimento nobre e que não pode ser banalizado, exposto ou ter uma manipulação inadequada. As mãos devem ser devidamente higienizadas, assim como o lugar onde será armazenado o leite", afirma Ary Lopes Cardoso, chefe da Unidade de Nutrologia do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
A pediatra Maria José Guardia Mattar, do Departamento Científico de Aleitamento Materno da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), também não aprova a ideia.
"O tempo de congelamento e o processo de higienização que a mãe deve seguir são temas que têm fundamentação, mas não há evidências que o picolé de leite materno é recomendável. O problema do calor excessivo pode ser resolvido com um banho para relaxar".

* Reprodução Márcio Melo

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