segunda-feira, 5 de maio de 2014

O BRASIL ESTÁ FICANDO VELHO E OS PAÍSES VELHOS DO MUNDO ESTÃO FICANDO NOVOS

Niemeyer, pleno, produtivo, centenário. No novo panorama da economia, o que, há pouco, era exceção, pode-se tornar regra. "Amor é privilégio de maduros", dizia o poeta Drummond. Agora, o amor e a vida, que pode ser vivida em dobro.

1. Um dado espantoso: 65% dos norte-americanos entre 62 a 74 anos, com boa instrução universitária, continuam firmes no mercado de trabalho;  exatamente o dobro daqueles apenas com instrução secundária.  A revista The Economist apontou o que vem alterando os rumos da economia, de forma exponencial: os mais velhos, com uma experiência de vida mais horizontal, gente que caçou mais saberes, que se manteve atualizada do ponto de vista da formação educacional e cultural – esta gente está valendo muito. Estes “coroas” são mais produtivos que seus antecessores.

2. O que salta aos olhos é que compete aos governos pensar não apenas na educação infantil, com toda a precariedade que ela já tem em nosso país, mas pensar na educação permanente – tecla na qual venho batendo (talvez mais, apanhando) na maioria dos textos que cometo neste espaço. Enquanto nos Estados Unidos, as pessoas formadas numa universidade sempre voltam a ela para aperfeiçoamento duas a três vezes durante sua vida, aqui o precário diploma de bacharel confere uma titulariedade “social”. Nada mais alusivo do que o recente caso do juiz Antonio Marreiros, da comarca fluminense de São Gonçalo, que levou até ao Supremo o julgamento de sua peremptória vontade de ser tratado de “doutor” pelos empregados do condomínio onde mora.
3. Ora, conferir título de doutor equivale a uma nobreza fora de época, um aparato tosco, diante da realidade de que os meios eletrônicos também não bastam se não se vai fundo na educação –  na alta, refinada, sensível e profunda qualidade da educação.
4. Enquanto aqui a grana do país se liquefaz em “tenebrosas tentações”, num reinado-maracutaiado  infestado de cargos e propinas (também uma “nobreza” fora de época!), os países voltam a se estruturar no Hemisfério Norte, ampliando sua distância daqui de baixo. Simples, eles estão refazendo seus planos de educação, saúde, previdência a mais longo prazo, com os novos dados da economia , incluindo as modificações do panorama social, entre os quais a força de trabalho dos mais velhos. Com isso, as distâncias também se ampliam entre os países e os indivíduos que passam a ter mais (idade com boa educação e, daí, mais recursos).
5. Nós brincamos de fazer governo. Os dados que usamos – isso quando ao IBGE é permitido, ao menos, pesquisar – são anacrônicos. Nosso gap tecnológico é brutal: registramos cem vezes menos patentes do que os Estados Unidos. Estudamos pouco, aprendemos pouco, não levamos em conta tendências. Vamos a uma delas, apontada em pesquisa da UniCarioca: 41% dos que vivem no Rio não querem se aposentar.
6. Não só aqui as pessoas, talvez, não  estejam a fim de se aposentar, com a carga que o termo representa:  a de se retirar do palco. Vejam que até 2035, 69 entre cada 100 pessoas do Japão terão mais de 65 anos. Nos países ricos o número de pessoas com idade superior a 65 anos irá dobrar. A Suiça terá 50 mil pessoas com mais de 100 anos em 2050. O fascinante é que estas pessoas estarão trabalhando, pensando, estudando, fazendo filhos, vivendo uma plenitude  que não a de um retiro ou de um asilo.
7. Há oito anos, fui visitar o arquiteto Niemeyer, então com 97 anos, para convidá-lo a proferir a aula inaugural da Casa do Saber, no Rio. Conversa vai, conversa vem, perguntou-me ele qual minha idade:
– 55, Oscar!
– Puxa, toda a vida pela frente!
8. Pois é, Oscar, além de demonstrar que “a beleza é leve”, também sabia prever futuros. Quem está à beira da aposentadoria começa, agora, a ter toda uma segunda vida, não a que os anúncios de PGBL e VGBL de bancos demonstravam: uma sombra e água fresca “obrigatórias” que, para muitos, não faz sentido. Vida é a  oportunidade  de voltar a alguma forma nova de escola. Um aprendizado lateral, expandido, novas possibilidades de invenção  de si mesmo e para a comunidade, palavra ainda difícil de ser praticada no Brasil.
9. Planos de governo tem de pensar minimamente a médio prazo e não no imediatismo-refém de decisões abruptas e absolutistas.  Já basta o volume excessivo de exceções, bolsas, idades mínimas e máximas para conceder todo tipo de benefício, que termina por caracterizar “deficiência” para absolutamente quem não está com deficiência nenhuma, mas na absoluta flor da idade, com toda a vida pela frente…

Fonte: Veja On Line

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